sexta-feira, 7 de agosto de 2009

IX

Arranco uma azeitona. Atiro-a ao ar e apanho-a, repetindo o processo enquanto caminho calmamente por labirintos em direcção ao meu lugar e guardo-a no bolso quando chego.
Sento-me e ajeito as costas contra o mármore. Procuro algo que me faça sentir em casa mas é-me quase vão, tenho apenas um céu aberto e uma Oliveira gasta pelo tempo e é apenas nisso que me foco.
Gasta pelo tempo; Quantas folhas dela tocaram o chão e quantos frutos nela surgiram. Quantos fungos e quão grande chegaram a ser as sua raízes, ainda que se mostre sobre pedras de calçada.
Tiro-lhe uma fotografia.
Imagino voltar a olhar e ela não estar lá mais. Tê-la capturado na máquina, tê-la feito desaparecer e, agora, existir apenas no meu cartão de memória. Ninguém saberá para onde foi, nem eu mesmo o vou chegar a saber.
Guardo apenas a certeza que esteve ali, à minha frente, e que agora já não está. Que as suas folhas caídas ainda se arrastam pelo chão e que o pequeno vulto no meu bolso me diz que a azeitona que colhi ainda é real, e existe ali comigo.
Quebro o meu imaginário e levanto-me. Aconchego a minha avó, pensando saber pelo silêncio tudo o que ela recita para si própria, perguntando-me ao mesmo tempo como será estar no seu lugar.
Pergunto-me quanto tempo mais terá e fico certo que a questão é presente aos dois, porém tento não me expandir por aí.
Olho a fotografia do meu avô mas não imagino que ao olhar de novo ele esteja lá. Coloco a azeitona sobre a campa do meu avô e digo "Avó, vamos?".


O tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel.