quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

V

Continuo perdido, adormecido entre ontem e amanhã neste torpor negro como as minhas Vans, como as minhas Levi's, como a minha t-shirt, como o meu casaco, como o meu blusão.
Dou passos pela estrada fazendo o meu luto com orgulho ferido, e sinto-me tão vazio que nem o gelar desta noite me toca.
O vazio destas ruas é como o branco no meu preto, contraste entre o desolador deste espaço e o facto de saber que por trás destas portas por onde passo todos estão a dormir, esquecidos de tudo. Calados, pacíficos.
Nada mais existe aqui para além de nada e chuva, e o único calor que recebo de todo este lugar vem do meu isqueiro, que abro e acendo, e fecho. E abro e acendo, e fecho. De novo.
Sinto-me fugitivo, preso pelo meu pé direito às consequências que criei por uma corrente de aço frio. Solto ao absurdo encarar da realidade numa anarquia de emoções que tomam posse da minha liberdade.
Neste momento posso andar por cima de carros, sentar-me numa mota que não é minha, abancar-me em cima de uma paragem de autocarro qualquer. Tenho a liberdade para me deitar no meio da estrada ou até mesmo para pular à varanda de alguém e lá permanecer sentado até me aborrecer, porque o que interessa é que não interessa a ninguém. Todos estão a dormir.
E por vezes, quando alguém chorou por mim, eu estava a dormir. Quando alguém me quis presente, eu estava a dormir. E quando esse único alguém precisou de uma simples palavra, ou de um simples gesto, eu estava a dormir! Calado, pacífico...
Agora, depois de ter ignorado um alarme constante, acordei tarde demais e não quero mais dormir. Fico sujeito ao cansaço e ao desgaste de todos estes factos que não me deixam fechar os olhos. Apenas pensar, recordar, arrepender com estas emboscadas que apenas me deixam sonhar, voando, apaziguado pelo negro, como corvos.
Voar, porque quando começas a reparar que tens armadilhas até em cada canto do teu quarto, aprendes que a única saída que tens é pelo telhado.



Muitos dos vossos comentários onde me partilham vivências e pontos de vistas têm permitido um abstracção ao desespero. Agradeço. Agradeço, mesmo!


26 comentários:

  1. Olá, espero poder te ajudar com as minhas mensagens, se tu quiser alguma do meu Blog fique a vontade em pegar ok?, eu gosto de dividir tudo que eu aprendo ou pesquiso com meus amigos de Blog, acho que isso é a verdadeira amizade mesmo sendo virtualmente.

    Abraços.

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  2. Palavras duras de alguém desesperado. Forte como um murro no estômago.
    Não estou a considerar que seja autobiográfico...
    Há outra hipótese de sair: Fazer um túnel.
    :)
    Abraço.
    António

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  3. Vim agradecer a passagem no meu espaço e tentar perceber o porquê do pedido.

    Gosto muito da escrita, gosto dos textos, mas não sei se fazem parte do real ou de ficção, ou se ambas as coisas. Embora tenha uma breve opinião formada, vou passando para tentar perceber se estou ou não certa na conclusão que tirei. Após isso poderei ser mais concreta nos comentários.

    Mas... posso dizer- te que o sentimento de "vazio" surge frequentemente no ser humano pelas mais variadas razões. Importa pois, saber lidar com ele e do mesmo retirar os ensinamentos mais positivos. Parece impossível, mas não o é! Faz parte de muitas aprendizagens ao longo da vida, por mais duras que sejam.

    Percebo o que queres dizer com "sinais". Mas por vezes não estamos preparados para os ver ou sentir. Não há que culpabilizar!! Ok?

    Até mais! :)

    Alexandra

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  4. Pode sair-se airosamente!! Sem ser pelo telhado! Beijos.

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  5. O bom é que ainda tens o delírio.
    Cadinho RoCo

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  6. eu só posso dizer que estou "presa" às palavras aqui escritas!

    vou lendo...

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  7. Caso isto seja real a solução não está no mundo virtual e muito menos na aprovação por parte de identidades "imaginárias", coisa que tu aparentemente tentas a todo o custo obter.

    Caso isto seja apenas e só literatura isolada, então tenho a dizer-te que tens bons textos, abstractos ou não, têm a habilidade de transparecer relativamente bem certos sentimentos e por isso dou-te o meu bem haja.

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  8. Gosto de ler.. como nao poderia deixar de ser :)

    Um beijo.

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  9. ANÓNIMO:

    A minha solução não está em parte alguma, ela não existe. Os motivos que me levam as estar aqui e agora são consequência de algo que levarei comigo ferido para sempre e nada há a 'solucionar' em relação a isso!
    E eu não procuro aprovação de ninguém! Procuro sabedoria e experiência de Vida que muitas destas 'pessoas virtuais' têm tanto ou a mais que eu.
    E quando me expando por aqui pedindo que me leiam, não peço, eu ofereço! Dou partes de mim que espero que sejam úteis mais tarde a quem possa passar em caminhos semelhantes aos meus.

    Guarda o teu bem haja porque prefiro manter-me em 'literatura isolada'.
    "Relativamente bem"? tss...

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  10. Olá, vim agradecer por sua presença em meu blog.
    Um otimo restim de semana pra vc
    bjim.

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  11. O teu pedido vem em estranha altura da minha vida, e ler o que escreves aqui é também uma 'coincidência' interessante.

    Gosto do que escreves, mas as tuas palavras doem cá dentro.

    Não sigo blogs, o meu é um processo egoísta de expressão e alívio, como é o teu. Mas penso que passarei por cá mais vezes, ler o que pões cá fora.

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  12. L.Malloy:

    Para quem procura perdão e retrata o arrependimento absoluto, demonstras uma grande arrogância para com singelas palavras, que no seu seio, até nem foram exageradas e muito menos pretendiam abalar esta realidade.

    Volto a frisar: relativamente bem... se achas que dominas a escrita e a arte das palavras transpirarem sentimentos, então ainda não sabes nada, pois esta é seguramente uma arte cuja perfeição nunca se atinge, nem com anos de escrita, nem com anos de vivência.

    Devias ser mais humilde... estás a tentar aprender uma nova vida, uma que te acalme o espírito e pelo que pude comprovar aqui consegues expressar-te sem correntes. Isso é positivo.

    Só te quis alertar para que não procurasses este refúgio e o tornasses morada permanente; aí seria uma liberdade encarcerada.

    Como vês, não pretendi ofender, mas sim tentar alertar-te para algo perigoso que poderia advir, pela minha interpretação, dos teus actos.

    Espero que aceites estes rabiscos, como o que são: amigáveis.

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  13. é duro penxar k enkanto alguem prexixou d nos tavamos a dormir mas...a kulpa tb n é tua...talvez exa pexoa n kizexe mostrar k prexixa-s d noxa ajuda...talvez axa-s k estaria melhor sozinha...
    haaa e nem smp a unika said k tens é pelo telhado....podes n te aperceber mas por vezes o kaminho ate a porta é bem mais facil d fazer d k parece...
    adorei o texto =)
    bjs bjs

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  14. Colho o inefável entre as mãos do vento
    como quem colhe rosa em pensamento;

    cresço no Tempo e o colorido lento
    do vento apaga minha realidade;

    pássaro livre nos jardins cifrados,
    vôo em violino, em minhas mãos me invento.

    Colombo de Souza

    Um abraço

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  15. Desespero,dor,magoas...qual de nós ainda não tivemos momentos assim?
    Eu mesmo tenho insônia,vou para cama bem tarde,as vezes amanheço acordada,outras durmo poucas horas,mas sei o antitodo para isso,ainda não chegou em minhas mãos(amor).

    beijooo.

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  16. Meu amigo lindo! A vida sempre está nos preparando armadilhas, mas muitas vezes, somos nós mesmos quem criamos, quando nos enregamos demais ao desespero. Todos nós, em determinado momento, passamos por dissabores, porém a diferença é como se lida com isso.
    Ah, meu amigo se soubesse um pouco da minha história de vida... Dias estou bem, outros nem tanto, mas faço o possível pra não me deixar levar pelos problemas, porque assim acabo ficando deprimida.
    Procure pensar sempre positivo. Não espere que as coisas boas aconteçam, faça com que elas aconteçam. Sei que é difícil, mas é assim que as atraímos.
    Acredite sempre, que o amanhã será melhor que hoje, mas se por ventura não for, é que ainda não chegou o momento, mas vai chegar.
    Fique com Deus! Bom fim de semana! Beijos

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  17. Bem pessoa L Malloy, pelo jeito teve uma recaída, mas isto não é nada que com a devida motivação não possa ser resolvido.

    E a outra saída, mesmo que o seu corpo não possa sair da onde estejas, você pode voar com as asas da sua alma, entendeu pessoa?

    Fique com Deus, L. Malloy.
    Um abraço.

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  18. Escreves maravilhosamente . Perante aquilo que li, estas só podem ser as minhas palavras iniciais e só posso agradecer-te por me teres conduzido até aqui.
    Existe tanta força na tua escrita, talvez porque seja a força da tua alma a revelar-se aqui . Vou voltar muitas vezes com certeza .
    Paula

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  19. desespero sentido...em palavras que adormecem para superar a dor...mas sente-se uma tentativa de libertação através do voo
    beijos e bom fds

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  20. ANÓNIMO:

    Interpretaste arrogância. Na realidade foi apenas falta de empatia, e foi aqui que a perdi: "coisa que tu aparentemente tentas a todo o custo obter".
    Isto remete-me a pensar que, a teu ver, embora anonimamente, publico-me apenas para agrado de outros, e isso não é verdade. E por isto reagi.

    Quanto ao domínio de escrita, isso é-me vasto, vão e relativo. A perfeição nas palavras não existe e pode justificar-se com o simples facto de cada ser interpretar diferentemente o que recebe.
    Obviamente, não domino nem nunca vou dominar as palavras. Elas dominam-me! E felizmente tenho ainda ínfimas coisas a aprender.

    Por final, podias ter-me alertado citando-me simplesmente o penúltimo parágrafo do teu último comentário que, de facto, foi bastante útil.
    Contudo, eu frequento este mundo porque as palavras teimam em sair e eu preciso delas cá fora para me ler e me ver a mim próprio.

    Sem ressentimento ou ofensa tomada.
    Lamento se abusei de alguma forma.

    Abraço

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  21. As armadilhas estão no quarto(ou dentro de ti)?

    E quem anda a colocar as armadilhas ?

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  22. Meu caro:

    Toda liberdade é, no melhor, relativa. Saber-se preso seja lá porque motivo for é estar melhor que a maioria que se julga livre.
    Um fraco consolo, eu sei, mas melhor que nada!

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  23. Uma dor, soberbamente transmitida! Altruísticamente partilhada!

    Adoro a tua escrita, a expressão das tuas palavras.

    Um beijo meu

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  24. Então voa, vai, sonha, acredita! Voa e vê que há saída e que podes usá-la! Voa e vê que não estás só porque há alguém a voar contigo e a querer fazê-lo!

    Quantas vezes também não quero voar daqui para fora.

    Beijo, sorri :)

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