terça-feira, 27 de janeiro de 2009

IV

Estou a voar a uma velocidade vertiginosa, perdido entre dezenas de sons que, juntos, não fazem qualquer sentido. Sei que são árvores a passar e ferros a ranger e motores a trabalhar e carros a tender para o infinito mas, apenas consigo ouvir uma anarquia de sonoridades que se assemelha a vento, vento e vento.
Os meus braços estão totalmente abertos, contrariamente aos meus olhos, e eu apenas sinto e oiço, com o quente do Sol na face. Nem vejo nem sinto sabor a nada, apenas na pele a doce adrenalina do meu voar. E ali continuo, livre, superior, ausente de mim próprio e do meu espaço.
Posso estar em Espanha, posso estar a sobrevoar a Austrália, posso estar no céu que cobre Tokio, posso estar em órbita, contornando a Terra. Sou eu que decido onde estou.
Ou era.
Um forte puxão de uma mão áspera quebra-me os sonhos e traz-me de novo à realidade. Ao que parece, não é permitido estar de pé, inclinado para o lado de fora, apenas agarrado com a mão direita no ferro presente na porta do comboio.
O pica pergunta-me se sou estúpido ou se atrasado mental, mas como não me encaixo em nenhuma delas, não lhe respondo.
"Tens a noção da irresponsabilidade que estás a fazer? Que tens uma enorme probabilidade de levares com um poste, uma árvore, uma parede, a mais de 100km/h?!" - tenho.
"Porque o fazes, então?" - porque o meu lugar é de costas e eu enjoo bastante. Então decidi apanhar um pouco de ar.
Confuso ou estupefacto, ele agarra-me e leva-me de novo ao lugar 73, como se me pusesse de castigo. Agora passa aqui de 5 em 5 minutos, não vá eu atirar-me lá para fora. E agora que reparo, está um lindo dia para morrer.
Tento mentalizar-me que estou a ir de frente, e não de costas, mas quanto mais fecho os olhos mais enjoado fico. Digo-me que estou farto de ir assim, e em seguida penso em porque raio ir de costas não me apraz. Mais pessoas vão, e não enjoam como eu.
Talvez se tivesse a certeza que este comboio se iria despenhar fazendo tantos óbitos quantos passageiros nele, não iria ligar se a minha viagem era de costas ou de cabeça para baixo. Provavelmente nem pensaria nisso e desfrutaria do momento.
Talvez o facto de eu poder andar de comboio quando bem me apetecer me faça desvalorizar esta acção. É garantida, e fácil de obter; uma ideia viciada que posso ter ganho ao longo de todas as viagens que fiz de comboio.
Isto leva-me a pensar que, sendo assim, eu posso ser como as pessoas que não enjoam por ir de costas, se esquecer este meu vício. Mas nesta ordem de ideias, se eu esquecer todos os meus vícios, não implicando que esqueça as minhas experiências, eu fico numa tela em branco, podendo eu ser quem quiser! Então porque não mudo de personalidade agora?
Talvez a minha teoria seja equívoca, ou talvez eu "goste" de ser assim, por saber que a minha solidão é um preço a pagar...





É-me fundamental ter opiniões e pontos de vista do exterior.
Aos que me me têm acompanhado, e aos que me acompanham agora: OBRIGADO!




22 comentários:

  1. ...continue
    tô gostando de ver,
    e esperando onde vai
    dar este 'caminho'.

    bjus

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  2. Concordo que os vicios sejam apenas uma parte da gente, mas se os perdemos, não ficaremos a tal ponto de uma tela branca em nossa vida...

    Parece que você pode viajar bastante, então por que não reparas na pessoas ao seu redor? Talvez entre uma delas te traga a felicidade.

    Fique com Deus, pessoa L. Malloy.
    Um abraço.

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  3. Viagem louca essa sua!
    Insistes em ir de costas...
    Que buscas afinal?
    Vou reler outras vezes...
    Confesso que seu texto é muito denso...forte!
    Algo para saborear...

    Beijos avassaladores!

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  4. muito bom o texto, inteligente e nos prende na ideia.

    bjosss...

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  5. Olhe sempre ao redor, tenho certeza que vc verá coisas que jamais havia percebido antes.
    Não dê as costas, vá de frente, cabeça erguida, sem temer, só a aprender, viver ...
    Um beijo

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  6. Só um jovem de 20 anos gosta de desafiar a vida dessa forma!!!

    Eu também já tive 20 anos!!!

    E ainda hoje não fujo dos desafios...abro os olhos e mergulho bem fundo!!!!

    Um beijinho para ti rapaz(gosto muito da tua foto de apresntação)lembra-me o principezinho...

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  7. Acompanhando.. passarei com tempo para ler.. mas do pouco que li, ja fiquei a gostar :)

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  8. enfrentar o desconhecido (a viagem que sucede) de costas voltadas , é o mesmo que cerrar os olhos ao futuro , deixarmo-nos cair tendo certezas de que alguem nos segura e nao nos deixa bater no fundo é confiar em demasia , gostei da forma como interpretas o facto de "enjoares indo de costas voltadas no comboio" , adorei a passagem do teu "sonho" para a realidade que te consome ...
    Vou passando por aqui na esperança de continuar a viajar com ideias tao densas e sentidas =)
    gostei .

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  9. concordo km o komentario anterior...
    alem do mais p k virar as kostas???...enfrenta a vida d frente...sem medos nem receios...
    bjs bjs

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  10. Mira-te pelo calendário da flores
    Que são só viço e esquecimento.
    Desprende-te dos ofícios do dia,
    Apaga os números, os anos e anos,
    Releva a data de teu nascimento.
    E assim, por tão leve sendo,
    Por tão de ti isento,
    De uma quase não resistência de pluma,
    Abraça o momento,
    Te apruma,
    Tome por bagagem os sonhos
    E apanha carona no vento.

    (Fernando Campanella)

    um abraço

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  11. A Vida são dois dias e não se podem desperdiçar.

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  12. a solidão é sempre um preço que temos de pagar...nem sempre é negativa
    beijos

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  13. Meu caro sendo ficção ou realidae seu texto é ótimo, não vou entrar nos seus questionamentos pessoais, apenas penso que sua forma de escrever é muito rara por aqui, tem uma maneira de fazer o leitor abstrair no profundo d'alma de alguém, pois que na verdade é um grande escritor. Junte e publique o livro!

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  14. Obrigada pela sua visita ao Nova Pangeia de Letras.
    Visitarei o seu blog com assiduidade pois gostei do que aqui li: Textos excelentes para reunir num livro!
    Apesar da notória solidão que transmitem (quantas vezes, a melhor companheira e conselheira)passam ao leitor uma sede de sequência, uma vontade de continuar a leitura até ao decifrar da história.
    Continue e pense em publicar. Um livro é um filho parido da alma e vale sempre a pena e, ainda que agrade a poucos, serão os bastantes para o justificarem.

    Um beijinho.

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  15. Tem selinhos para ti no meu blog.

    Um grande abraço,
    Átila Siqueira.

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  16. gosto dos textos.

    mas eu daria outro nome "caminho para o abismo", sendo que podemos ir em frente e cair ou parar.

    continuarei por cá :)

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  17. Ver passar a paisagem de costas será parecido com pegar sempre a bifurcação errada? Se for, tens aqui um companheiro de jornada! Só não sei dizer se me felicito ou lamento por isso...

    Felizmente ainda se pode (ainda que escondido) voar em algum lugar!

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  18. É descrito um momento de aventura, um momento intenso. Se esse sentimento de liberdade e despreocupação persistisse, talvez vivessemos mais felizes. E a sensação de enjoo ou não, é uma característica pertencente a cada ser. Podemos não ser perfeitos, e não o somos, mas enjoando ou não, talvez o nosso ser, a nossa personalidade, não necessite de mais retoques e apenas devessemos viver da forma como somos. É apenas algo para ser pensado. Que hajam mais sorrisos. Bjs

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  19. A lei é e será sempre uma: viver a vida ao máximo, sem preocupações, sem interesses, sem nada que a torne díficil de suportar.

    Como li noutro blog: "Apenas porque tudo o que vemos pode não ser real, pode ser uma fantasia, fruto da nossa imaginação, ou talvez um sonho que um dia vai acabar..."

    Concordo de todos os pontos de vista e acredito que tudo o que vemos pode não ser real, ou talvez, comandado por uma "mulher gorda"

    Parabéns pela escrita.

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