domingo, 25 de janeiro de 2009

II

Estou sentado numa ponte velha, contemplando o Sol. O mar está bastante calmo e hoje ausenta-se a ventania de Janeiro, o que me permite sentir o calor solar pelos braços e pernas, sentindo a ganga das calças a ficar mais quente.
Abstraio-me enquanto imagino que os tons de preto e castanho da sujidade na ponta das minhas Chuck Taylor's formam montanhas e terrenos visionados de muito longe, como de um satélite a um planeta.
Ao contrário do planeta na ponta dos meus pés, o céu está livre de qualquer extra. Não há aviões, não há pássaros, continuam a não haver naves, enfim: só azul. Azul, azul, azul.
Lá à frente está um pescador a fumar um cigarro sentado numa cadeirinha, dando uso ao carrete. Mas não trouxe nada, apenas lixo.
De novo, coloca algo no anzol e verifica o nó da bóiazinha branca e vermelha unida ao fio. Em seguida ajeita a boina e abana o rabo na cadeira para se aconchegar, presumo. Abre as pernas, inclina-se para a frente, cana atrás, e zum. Depois espera que um peixe coma a minhoca, ou o que raio lá está no anzol.
Na próxima vez gostava que ele se descuidasse e largasse o fio antecipadamente. Que o anzol viesse bem cá atrás e me apanhasse, cravando-se no meu colarinho e puxando-me violentamente em direcção ao céu. E uma vez lá em cima, daria início à descida em direcção ao mar, onde uma verde e vermelha e enorme piranha me esperaria de boca bem aberta para satisfazer um desejo gourmet.
Mas à parte de pensar, o que interessa é que ontem cedi a pressões e acabei por sair p' noite de sábado. E foi uma merda!
Sabia que não iria aguentar ver certos rostos de novo e então decidi empenhar-me no vodka; não podia estar sóbrio. O resultado foi que por cada trago que dava naquele cálice de destilação um novo conjunto de pensamentos me invadia. Que não deveria estar ali mas sim a chorar baba e ranho por ter destruído o que tinha. Que não sabia como era possível atrever-me sequer a sorrir, ainda que por meros segundos, depois do que fiz. E que devia passar-me um camião por cima. E que sei lá...
Parei de beber e, sem motivo que conheça, lembrei-me do pescador e imaginei-me a boiar. A boiar em memórias cor-de-rosa, originadas pela fusão do vermelho e branco de uma bóia, originadas pela fusão entre eu e uma rapariga.
E enquanto relaxo naquele ritmo constante não me apercebo de que uma enorme piranha está a beber todas as minhas memórias, destruindo-as. E eu só reparo quando a minha maré vaza por completo, deixando-me preso lá em baixo, sem maneira de subir, sem maneira de viver, sem maneira de morrer. Ali, apenas; até que o tempo me consuma.
Ao ver o fundo do copo apercebi-me que a minha vida não passava agora de um mero cubo de gelo.

14 comentários:

  1. Escreves com sentimento, ao ler-te sinto que te vem do coração.

    (Porque me pediste para passar aqui?
    Conheço-te..?)

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  2. ...eu não sei de fato até onde é ficção,
    ou realidade o que escreves aqui.
    mas de uma coisa tenho certeza,
    escreves trazendo o coração nas pontas
    dos dedos, e isso é raro.

    seja lá o que lhe moveu
    a criar esta página, tenha
    certeza que em espírito és
    avançado para os meros 20 anos
    por aqui, e é com esta vantagem
    que poderá mudar toda uma história
    da sua passagem por este planeta
    de resgates...

    já estou lhe seguindo...

    bjusss

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  3. Estou cá.


    Não percebo o que buscas: se consolo se absolvição se horizonte se outra qualquer verdade.

    Mas estou cá e decerto terei tempo para perceber.

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  4. Ok.
    Solitária? É impressão.
    'Estou mais só, que sozinha.'

    Abraço.*

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  5. belo post.
    terei tempo suficiente para saber onde tamanhos sonhos vão parar.

    abç,
    :)

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  6. O pensamento da morte engana-nos, pois faz-nos esquecer de viver. Vive a vida e aprende com os erros!

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  7. Rapaz, não sei se o que escreves corresponde à realidade do que vives ...foste me chamar e eu vim ...na minha opinião precisas URGENTEMENTE de ajuda!!!E estou séria!!!A piranha representa quem na tua vida ou o quê?
    Quem escreve como tu é muito mais que um cubo de gelo...tu deves ter a auto estima muito mas muito de rastos!!!!
    O que falei em relação ao outro texto repito agora.
    Precisas de um bom profissional ou não dás volta a isso!!!!!
    Qualquer coisa já sabes!Ok?

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  8. um texto que se afirma em tonalidades nebulosas, contudo, significativas. um realismo que inquieta e que aparentemente não se divorcia de um pendor poético - sente-se e bem que as palavras são a tua (nossa) forma possível de estar vivo e é isso que inquieta - não percebermos se se trata de um cenário fragmentário mas imaginário ou se... enfim...

    as palavras têm essa mania - a de nos iludir através do real - sempre a confundir: onde começa uma e termina a outra - realidade e... poesia!


    abraço!!

    - textos PODEROSOS!!

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  9. Bastante intenso o texto.. com sentimento.
    Gostei!

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  10. Algumas memória minhas tinham de ser esquecidas...

    Belo texto.

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  11. Para refletir:
    Aprendi que não posso exigir o amor de ninguém...
    Posso apenas dar boas razões para que gostem de mim...
    E ter paciência para que a vida faça o resto...
    Não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo
    de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso.
    (William Shakespeare)

    Faça dessa nova semana um novo início rumo à
    felicidade.
    abraços

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  12. tens k te desprender dexas memorias k so te estao a distruir...
    n tenhas medo d pedir ajuda a kem ker k seja...
    a tua vida aind pode paxar d um "mero cubo d gelo"...é so lutares kontra ixo...
    bjs bjs

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  13. Das regiões abissais não há como fazer entender quem habita a superfície; daí o choque com o iceberg sempre causar espanto.

    Te acompanho como alguém que conhece o abismo e a quem o abismo conhece.

    Abraço mnemônico!

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