quinta-feira, 21 de outubro de 2010

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'Onde estão os meus amigos?
Remotas memórias. Saltitam, pululam.
Cheiros, odores, miragens.
O café.
O sorriso. 'Olá como está!'
E outras encenações
A novidade. 'A vizinha do 3º fugiu, amanhã vem no jornal!'

Ai... a imperial da Munique. Os destemidos tremoços.
Moços, maçons. Canalha, navalha.
Pensa coração.
Amigos onde estais?

A sueca com minis à mistura.
O relato da bola. A malha, copo de 3.
A feira do relógio. O relógio da feira.
Sandes de couratos, vinhos de Torres.
Jogging de Marvila.

Domingo... Especialmente domingo.
Barbeados. Dentes lavados e martinis no plástico labrego.
Alumínio. Moderno. Kitch. Mau gosto.
Doze cordas, mãozinhas. Salteadores da razão perdida.
Perdidos, enjaulados.
Correio da manhã. O cú da vizinha do 9ºB,
Regalo para a vista. Suplemento a cores com salários em atraso.

E a Lisnave. Petroquímica.
Cancros do meu Tejo, apodrecendo lentamente o azul das águas.
E eu impotente. Cinemascope.
Trinta e cinco milímetros de mim.
A raiva afogada entre cubaslibres e pernas de mulheres,
Que não são putas nem são falsas nem são nada.
São pernas de mulheres e cubaslibres simplesmente.

Paga-se a saudade com cartão de crédito.

Táxi,
Leva-me para onde está o meu amor.
Táxi,
Leva-me para lá de mim.
Táxi,
Atropela-me os sentidos e a alma para não deixar vestígios.'

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

IX

Arranco uma azeitona. Atiro-a ao ar e apanho-a, repetindo o processo enquanto caminho calmamente por labirintos em direcção ao meu lugar e guardo-a no bolso quando chego.
Sento-me e ajeito as costas contra o mármore. Procuro algo que me faça sentir em casa mas é-me quase vão, tenho apenas um céu aberto e uma Oliveira gasta pelo tempo e é apenas nisso que me foco.
Gasta pelo tempo; Quantas folhas dela tocaram o chão e quantos frutos nela surgiram. Quantos fungos e quão grande chegaram a ser as sua raízes, ainda que se mostre sobre pedras de calçada.
Tiro-lhe uma fotografia.
Imagino voltar a olhar e ela não estar lá mais. Tê-la capturado na máquina, tê-la feito desaparecer e, agora, existir apenas no meu cartão de memória. Ninguém saberá para onde foi, nem eu mesmo o vou chegar a saber.
Guardo apenas a certeza que esteve ali, à minha frente, e que agora já não está. Que as suas folhas caídas ainda se arrastam pelo chão e que o pequeno vulto no meu bolso me diz que a azeitona que colhi ainda é real, e existe ali comigo.
Quebro o meu imaginário e levanto-me. Aconchego a minha avó, pensando saber pelo silêncio tudo o que ela recita para si própria, perguntando-me ao mesmo tempo como será estar no seu lugar.
Pergunto-me quanto tempo mais terá e fico certo que a questão é presente aos dois, porém tento não me expandir por aí.
Olho a fotografia do meu avô mas não imagino que ao olhar de novo ele esteja lá. Coloco a azeitona sobre a campa do meu avô e digo "Avó, vamos?".


O tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

VIII

boom boom boom boom (...)
O som constante e grave que as paredes do bar deixam escapar às 4:37 da manhã, quando ainda há risos, sons de copos, histeria. Ainda há noite por estas ruas.
Acabei o meu trabalho, por hoje e pelos próximos meses. Tenho a vontade de voltar a casa e o sucesso deste ano lectivo. E guardo com todo o ânimo um grande maço de notas no meu bolso de trás.
Encosto-me à parede. (click!) Acendo o isqueiro e prolongo a primeira passa tanto quanto os meus pulmões me deixam. Não me sabe a fumo, sabe-me a tempo. Sabe-me a espaço. Sabe-me a férias!
É bom estar de volta por estas ruas e senti-las despreocupado. É bom saber que vou voltar a acordar num belo dia de sol, fazer o que quer que me apeteça e, quando a noite chegar e me sentar à mesa do café com todos os que me têm feito falta, vou perguntar "Que dia é hoje?".


sábado, 14 de março de 2009

VII

Estou numa feira, ou algo do género. E digo-o porque a meu lado está uma enorme tenda branca onde, à entrada, enormes balões brancos se querem soltar pelo céu, impedidos por fitas vermelhas que alguém segura.
Não sinto a temperatura mas presumo que seja uma noite quente, pois todos vestem tshirts, calções, vestidos... Mas não consigo ver caras, só vejo corpos.
Passeio por lá e sento-me na relva, sozinho, a olhar para cima. As minhas pernas estão juntas e os meus joelhos bem próximos do meu peito. Eu aguardo algo, mas não sei o quê.
Subitamente, os balões soltam-se e vagueiam no ar captando toda a minha atenção. Vejo-os a dançar sem qualquer sentido, livres de tudo e sobre um lago, rebentando ao final de algum tempo. Um fogo de artifício magnífico; sem luzes e estrondo mas, com balões.
O último balão rebenta sobre mim, e o nó de borracha na sua extremidade, o resto do seu 'corpo', cai perto do meu lugar. Eu levanto-me.
Sinto-me sortudo sentindo aquele pedaço branco de algo na mão, e guardo-o no bolso. Em seguida, já de pé, parto à procura de algo, mas não sei o quê.
Vou olhando para todos os lados, andando calmamente e vendo gente à minha volta comer algodão doce e passear de mãos dadas. Vendo gente grande, pequena, de cabelos compridos, curtos... Mas não consigo definir caras.
Paro de repente e, frente a mim, está a única cara que consigo definir. Num vestido branco, os longos cabelos castanhos, os olhos esverdeados, iguais aos meus, os lábios finos e delicados, o peito saliente e aquela estatura que nunca consegui sequer comparar...
É ela! O amor da minha vida, o amor que perdi. A parte que me falta e a razão do meu vazio. A pessoa mais brilhante que um dia conheci.
Sinto que o tempo é presente, e não futuro ou passado. Sinto frio e calor, alegria e medo. Sinto tudo, e caminhamos mutuamente em direcção ao nosso encontro.
Ela diz-me "Dá-me apenas um abraço." e isso foi o suficiente para as lágrimas me darem sinal de si. "Eu odeio-te por tudo mas não consigo viver sem ti" - diz-me.
Sentamo-nos na areia, que antes era relva, e conversamos. Fazemos promessas e juras, falamos de qualquer coisa, sempre abraçados. Nunca nos largámos.
O lago torna-se mar, e o mar toca-nos com uma onda que sobe demasiado. Embate contra nós e levantamo-nos, dando final ao nosso abraço.
"Estás bem?" - pergunto-lhe.

Não obtive resposta, porque agora só vejo o meu quarto.
Estou de novo sozinho, no branco dos meus lençóis e das paredes ao meu redor. Confuso, diferente.
Apetece-me ligar-lhe, perguntar-lhe se ela também sonhou, se também sentiu o que eu senti! Ou apenas perguntar-lhe se está bem... Mas não posso fazê-lo.
Hoje não me apetece estudar, não me apetece ir trabalhar.
Hoje só vou largar um balão branco no céu.


(desculpem a ausência nos vossos blogs mas o meu tempo tem sido tão reduzido. Domingo estou livre, prometo visitar-vos)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

VI - 1ª Parte

Estou sentado a observar vícios e pessoas, fundidos. Existem luzes e cores em várias direcções, mas para mim é tudo negro. Sinto-me tonto e farto de estar em pé neste lugar, vasto de tédio.
Enquanto brinco com o meu isqueiro, no meu carismático "abrir e acender, fechar. Abrir e acender, fechar...", divirto-me a observar o autentico Reality Show onde, em primeira pessoa, posso encontrar tantas personagens quanto controvérsias e enredos.
Como o rapaz lá ao fundo: a quantidade de gel que o seu cabelo aparenta traz a notoriedade de que se preocupa com a sua imagem; tal como a forma como constantemente ajeita a blusa para que esta não se sobreponha à fivela do cinto, não vá a brilhante e reluzente insígnia D&G passar despercebida à rapariga a quem ele olha de soslaio, segundo a segundo.
Não muito distante, está outro rapaz. Este demonstra a sua irreverência e juventude pela forma como faz um pouco de mosh no meio do bar a ouvir "Ava Dore" e levantando bem alto uma garrafa de cerveja como se estivesse num concerto ao vivo. O seu círculo de amigos demonstra a mesma atitude: inconsciente, jovem, despreocupada, viva!
Perto desse círculo está uma rapariga, sorridente e calma, mesmo no meio de toda a agitação. Ela retira o telemóvel do bolso para o desbloquear; depois, olha para o ecrã, e por alguns segundos o sorriso dela desaparece, dando lugar a um olhar infinito e perdido. Finalmente, coloca-o de novo no bolso e retoma o sorriso que a ajuda a passar despercebida no meio da multidão.
Por sua vez, a rapariga está ao lado de um grupo de miúdas que gritam e saltam fernéticamente como se tivessem descoberto pela primeira vez que existe mais na vida do que Morangos com Açúcar, MSN e Hi5. E no meio delas está provavelmente a mais popular de todas, que se destaca pela forma como as outras se inclinam sobre ela cada vez que ela fala; ou como olham entusiasmadas cada vez que ela aponta; ou simplesmente pela forma como raramente parece ligar ao que as outras dizem...
O divertido nisto é que a rapariga popular aponta constantemente para o rapaz do gel, indicando o seu interesse mas, porém, falta de coragem em lá ir e confrontá-lo. O rapaz do gel continua a tentar chegar perto da rapariga que ainda gala, sem saber que bem perto, ainda no seu pequeno mosh e de garrafa no ar, está o seu namorado - coisa que concluí à entrada do bar, ao vê-los sempre de mão dada chamado-se "amor" mutuamente. E finalmente, a rapariga do telemóvel talvez não estivesse tão só se o desligasse e olhasse 90º à sua direita, onde um rapaz deixa soltar um olhar bastante apaixonado sobre ela.



(Pensei que este 'mundo' de blogosfera fosse diferente, vocês têm sido espectaculares.
Obrigado aos conselhos e às opiniões.)




sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Débil

Hoje dispo-me do manto dos meus textos para vos afirmar que todo o meu sofrer é justo e que toda a minha culpa é, na realidade, minha.
Perdão? Nunca o terei sob a forma de uma frase citada por quem magoei, mas vou tê-la por detrás de uma chance. Porque 'oportunidades vêm frequentemente disfarçadas sob a forma de infortúnios ou derrotas temporárias', e esta minha fase não passa de uma delas.
Porém, não a considero infortuna de forma nenhuma, porque tenho a ampla noção de que neste momento estou a equilibrar o meu Karma. Apenas a conhecer o mal em mim do mal por mim.
Tudo o resto é partilha. É necessidade constante de falar pintando cores, mostrando espaços, descrevendo almas. Nada mais.
Existe uma abstracção ao desânimo por cada ponto de vista construtivo ou por cada palavra dura de realidade. Tal como existe uma recessão ao vazio quando recebo o convite à continuação dos meus posts.
Mas existe apenas uma coisa que nunca conseguirei compreender: o porquê das minhas acções que feriram, quando não seria muito ter reflectido apenas um pouco nas consequências que poderiam ter. O porquê de sofrer e ansiar a falta de uma pessoa, e depois agir tomando-a por garantida!
O que mais me desilude é ter corrido mundos e sofrido infernos para que quando lá chegasse apenas cruzar os braços.

Hoje eu dispo-me da capa dos meus voos porque, hoje, celebraria mais um mês com quem prometi "para sempre".


30


quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

V

Continuo perdido, adormecido entre ontem e amanhã neste torpor negro como as minhas Vans, como as minhas Levi's, como a minha t-shirt, como o meu casaco, como o meu blusão.
Dou passos pela estrada fazendo o meu luto com orgulho ferido, e sinto-me tão vazio que nem o gelar desta noite me toca.
O vazio destas ruas é como o branco no meu preto, contraste entre o desolador deste espaço e o facto de saber que por trás destas portas por onde passo todos estão a dormir, esquecidos de tudo. Calados, pacíficos.
Nada mais existe aqui para além de nada e chuva, e o único calor que recebo de todo este lugar vem do meu isqueiro, que abro e acendo, e fecho. E abro e acendo, e fecho. De novo.
Sinto-me fugitivo, preso pelo meu pé direito às consequências que criei por uma corrente de aço frio. Solto ao absurdo encarar da realidade numa anarquia de emoções que tomam posse da minha liberdade.
Neste momento posso andar por cima de carros, sentar-me numa mota que não é minha, abancar-me em cima de uma paragem de autocarro qualquer. Tenho a liberdade para me deitar no meio da estrada ou até mesmo para pular à varanda de alguém e lá permanecer sentado até me aborrecer, porque o que interessa é que não interessa a ninguém. Todos estão a dormir.
E por vezes, quando alguém chorou por mim, eu estava a dormir. Quando alguém me quis presente, eu estava a dormir. E quando esse único alguém precisou de uma simples palavra, ou de um simples gesto, eu estava a dormir! Calado, pacífico...
Agora, depois de ter ignorado um alarme constante, acordei tarde demais e não quero mais dormir. Fico sujeito ao cansaço e ao desgaste de todos estes factos que não me deixam fechar os olhos. Apenas pensar, recordar, arrepender com estas emboscadas que apenas me deixam sonhar, voando, apaziguado pelo negro, como corvos.
Voar, porque quando começas a reparar que tens armadilhas até em cada canto do teu quarto, aprendes que a única saída que tens é pelo telhado.



Muitos dos vossos comentários onde me partilham vivências e pontos de vistas têm permitido um abstracção ao desespero. Agradeço. Agradeço, mesmo!